Resumo: A greve é um direito constitucional dos trabalhadores — mas não é absoluto. Ela precisa ser exercida dentro dos limites da lei: com aviso prévio ao empregador, conduzida pelo sindicato e de forma pacífica. Durante a greve, o contrato de trabalho fica suspenso e os salários dos dias parados em regra não são devidos — salvo acordo ou decisão judicial. Em atividades essenciais, parte do serviço precisa ser mantida. E o lockout — paralisação unilateral imposta pelo empregador — é expressamente proibido e garante aos trabalhadores o direito ao salário.
Base Legal
CF/88, art. 9º – direito de greve garantido a todo trabalhador; lei definirá serviços essenciais; abusos sujeitam responsáveis às penas da lei
CF/88, art. 8º, III e VI – legitimidade sindical para a negociação coletiva e para a condução do movimento grevista
Lei 7.783/1989 – regula o exercício do direito de greve, define atividades essenciais, aviso prévio, suspensão do contrato, greve abusiva e lockout
Lei 7.783/1989, art. 2º – definição de greve: suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação pessoal de serviços ao empregador
Lei 7.783/1989, art. 13 – atividades essenciais: lista taxativa
Lei 7.783/1989, art. 14 – greve abusiva: inobservância das normas da lei ou manutenção após acordo/convenção/decisão judicial
Lei 7.783/1989, art. 17 – lockout: proibição da paralisação por iniciativa do empregador
CLT, art. 484 – culpa recíproca: extinção do contrato com verbas rescisórias reduzidas à metade
O Que é a Greve e Quem Tem Legitimidade para Decretá-la
A greve é a suspensão coletiva, temporária e pacífica — total ou parcial — da prestação de serviços ao empregador, com o objetivo de defender os interesses dos trabalhadores (Lei 7.783/89, art. 2º).
A legitimidade para instaurar e conduzir o movimento de greve pertence ao sindicato profissional da categoria — não a grupos informais de empregados. Isso porque a greve é um direito coletivo, e a CF/88 (art. 8º, VI) determina que nas negociações coletivas deve haver participação obrigatória do sindicato.
Condição essencial: para que a greve seja lícita, deve haver tentativa prévia de negociação frustrada. A paralisação decretada sem que se esgote a via negocial tende a ser considerada precipitada e pode ser questionada juridicamente.
Greve contra decisão judicial: a greve decretada em desacordo com decisão judicial vigente é ilícita. A decisão do Judiciário prevalece sobre o exercício do direito de greve naquele caso específico.
Aviso Prévio de Greve
Antes de iniciar a paralisação, o sindicato deve comunicar o empregador ou a entidade patronal com antecedência mínima de:
72 horas: para atividades essenciais (lista taxativa do art. 13 da Lei 7.783/89)
48 horas: para todas as demais atividades
O não cumprimento do aviso prévio pode caracterizar abuso do direito de greve, tornando o movimento ilícito e expondo os participantes a responsabilidade trabalhista, civil ou penal.
Greve Lícita versus Greve Abusiva
Greve Lícita
Greve Abusiva
Exercida pelo sindicato profissional após tentativa de negociação frustrada
Inobservância das normas da Lei 7.783/89
Com aviso prévio ao empregador (72h em atividades essenciais / 48h nas demais)
Manutenção da paralisação após acordo, convenção ou decisão judicial
De forma pacífica, sem impedir acesso ao trabalho ou ameaçar pessoas
Paralisação não autorizada por assembleia geral da categoria
Sem violar ou constranger direitos fundamentais de empregadores ou terceiros
Impedir acesso de trabalhadores não aderentes ao local de trabalho
Não contrária a decisão judicial já proferida
Prática de atos ilícitos ou crimes no curso do movimento
Exceção ao conceito de abusividade: mesmo durante a vigência de acordo ou sentença normativa, não constitui abuso do direito de greve a paralisação que: (a) tenha por objetivo exigir o cumprimento de cláusula descumprida; ou (b) seja motivada por fatos novos e imprevistos que modifiquem substancialmente a relação de trabalho.
Direitos dos Grevistas
São assegurados aos grevistas durante o movimento:
Usar meios pacíficos para persuadir outros trabalhadores a aderirem à greve
Arrecadar fundos para o movimento
Divulgar livremente o movimento grevista
O que os grevistas não podem fazer:
Impedir o acesso ao trabalho de quem não aderiu à greve
Causar ameaças ou danos a pessoas ou à propriedade da empresa
Violar ou constranger direitos fundamentais de outros trabalhadores ou de terceiros
E o que a empresa não pode fazer durante a greve:
Adotar meios para constranger empregados a comparecerem ao trabalho
Frustrar ou dificultar a divulgação do movimento grevista
Contratar trabalhadores substitutos para as funções dos grevistas — exceto nas hipóteses de greve abusiva ou para manutenção de atividades essenciais quando não houver acordo com o sindicato
Suspensão do Contrato e Pagamento de Salários
A participação em greve lícita suspende o contrato de trabalho. Durante a suspensão:
O empregado não tem direito ao salário dos dias parados
O tempo de greve não conta como tempo de serviço para férias, 13º ou outros benefícios calculados por tempo
O empregador não pode descontar esses dias como faltas injustificadas (o desconto é feito como suspensão do contrato)
Exceção: se as partes ajustarem — por acordo, convenção coletiva ou determinação judicial — o pagamento dos dias parados, a greve passa a ser tratada como interrupção (e não suspensão) do contrato. Nesse caso, os salários são devidos.
Atenção — greve não formalizada: quando empregados param o trabalho sem seguir os requisitos da Lei 7.783/89 (sem sindicato, sem aviso prévio, sem assembleia), a paralisação não é reconhecida como greve lícita. O TRT-3 já decidiu que, em casos assim, a solução pode ser a culpa recíproca (art. 484 da CLT), com responsabilidade distribuída entre empregados e empresa.
Atividades Essenciais: Obrigação de Manter Serviços Mínimos
Em atividades essenciais, mesmo durante a greve, o sindicato, os empregadores e os trabalhadores são obrigados a garantir, em comum acordo, a prestação dos serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade — aquelas que, não atendidas, coloquem em perigo iminente a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população.
São consideradas atividades essenciais pela Lei 7.783/89:
Atividades ou Serviços Essenciais (lista taxativa — art. 13 da Lei 7.783/89)
Tratamento e abastecimento de água
Produção e distribuição de energia elétrica, gás e combustíveis
Assistência médica e hospitalar
Distribuição e comercialização de medicamentos e alimentos
Serviços funerários
Transporte coletivo
Captação e tratamento de esgoto e lixo
Telecomunicações
Guarda, uso e controle de substâncias radioativas, equipamentos e materiais nucleares
Processamento de dados ligados a serviços essenciais
Controle de tráfego aéreo
Compensação bancária
Se não houver acordo entre sindicato e empresa sobre os serviços mínimos: o empregador pode contratar diretamente empregados para os setores que exijam a manutenção de serviços essenciais.
Se o empregador não garantir os serviços essenciais: o Poder Público poderá assumir diretamente a prestação desses serviços.
Atenção — manutenção de equipamentos: independentemente de qualquer acordo, o sindicato deve manter equipes de empregados para assegurar os serviços cuja paralisação possa resultar em prejuízo irreparável pela deterioração de bens, máquinas e equipamentos, e para permitir a retomada normal das atividades ao fim da greve.
Rescisão Contratual Durante a Greve
Durante a greve, é vedado ao empregador:
Rescindir o contrato de trabalho de empregado em razão de sua participação na greve lícita
Contratar trabalhadores substitutos para ocupar as vagas dos grevistas
Essas vedações caem nas seguintes situações:
Quando a greve for declarada abusiva pela Justiça do Trabalho
Quando os grevistas mantiverem a paralisação após a celebração de acordo, convenção coletiva ou decisão judicial que encerrasse o conflito
Atenção: mesmo em greve abusiva, a rescisão por justa causa exige que a conduta individual do empregado seja grave o suficiente para justificá-la — a mera participação na paralisação, por si só, raramente sustenta a justa causa. A gradação pedagógica (advertência, suspensão) costuma ser exigida pelos tribunais.
Lockout: O Que o Empregador Não Pode Fazer
O lockout é a paralisação das atividades por iniciativa do empregador, com o objetivo de frustrar a negociação ou dificultar o atendimento das reivindicações dos empregados. É expressamente proibido pela Lei 7.783/89 (art. 17).
Aspecto
Greve
Lockout
Quem paralisa
Trabalhadores
Empregador
Objetivo
Defender interesses dos empregados
Frustrar negociação ou dificultar reivindicações
Permitido por lei?
Sim — CF/88, art. 9º e Lei 7.783/89
Não — expressamente proibido pela Lei 7.783/89
Salário durante a paralisação
Suspenso (salvo acordo ou decisão judicial)
Mantido — empregados têm direito ao salário
Contrato de trabalho
Suspenso
A paralisação é ato ilícito do empregador
São práticas que configuram lockout:
Paralisar as atividades da empresa de forma unilateral, total ou parcialmente
Proibir o acesso dos empregados aos locais de trabalho
Recusar-se a fornecer condições de trabalho com o intuito de forçar a paralisação das atividades
Consequência: durante o lockout, os trabalhadores mantêm o direito ao recebimento de salários — a paralisação é ato ilícito do empregador e não pode prejudicar economicamente os empregados.
Responsabilidade pelos Atos Praticados durante a Greve
Os atos ilícitos ou crimes praticados no curso da greve — seja por grevistas, seja por integrantes da empresa — geram responsabilidade individual, apurada conforme a legislação trabalhista, civil ou penal, dependendo da natureza do ato.
O Ministério Público pode, de ofício, requisitar a abertura de inquérito e oferecer denúncia sempre que houver indício da prática de delito no contexto do movimento grevista.
Responsabilidade do sindicato: quando a greve for declarada abusiva ou ilegal, o sindicato pode ser responsabilizado pelos prejuízos causados aos trabalhadores e aos empregadores, na forma da legislação civil aplicável.
Checklist para o DP
Ao receber o aviso de greve: verificar se foi dado com a antecedência mínima exigida (48h para atividades gerais; 72h para atividades essenciais)
Verificar se o movimento foi convocado pelo sindicato profissional da categoria — greve sem legitimidade sindical pode ser questionada como ilícita
Se a empresa atua em atividade essencial: identificar quais serviços mínimos precisam ser mantidos e negociar com o sindicato a escala de manutenção
Durante a greve: não tomar nenhuma medida que constranja empregados a comparecerem ao trabalho
Durante a greve: não contratar trabalhadores substitutos (exceto para manutenção de atividades essenciais sem acordo com o sindicato)
Registrar os dias de paralisação de cada empregado para processamento na folha de pagamento como suspensão do contrato (sem salário, salvo acordo)
Aguardar o resultado de eventual negociação ou decisão judicial sobre os dias parados antes de encerrar o lançamento na folha
Verificar se há acordo ou decisão que determine o pagamento dos dias parados — se houver, os salários são devidos (interrupção, não suspensão)
Nunca fechar a empresa ou proibir o acesso dos empregados ao local de trabalho para pressionar os trabalhadores — isso é lockout e é ilegal
Em caso de greve abusiva declarada judicialmente: a rescisão por justa causa exige conduta individual grave e comprovada — e gradação pedagógica anterior
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