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Reembolso de Quilometragem – Natureza Jurídica, Cálculo e Encargos

Resumo: O reembolso de quilometragem pago ao empregado que usa o próprio veículo a serviço da empresa pode ter natureza indenizatória — sem reflexo em encargos — ou salarial, com todas as incidências trabalhistas e previdenciárias. O que determina essa distinção é simples: se o pagamento é baseado nas despesas reais comprovadas, é indenizatório; se é pago habitualmente sem comprovação, com base na produção ou em valor fixo desvinculado dos km rodados, vira salário. O DP precisa saber identificar cada situação e, quando necessário, calcular corretamente o valor justo por quilômetro rodado.

Base Legal

  • CLT, art. 2º – riscos da atividade econômica são do empregador: fundamento para o ressarcimento das despesas com veículo próprio do empregado
  • CLT, art. 457, §§ 1º e 2º – parcelas que integram (e as que não integram) o salário do empregado
  • CLT, art. 818, I – ônus da prova: ao empregador cabe provar pagamentos realizados e valores devidos; ao empregado, provar despesas superiores ao valor ressarcido
  • TST — RR 264126 (Rel. Min. Carlos Alberto Reis de Paula, DJ 27/11/1998) – verba de quilometragem paga para ressarcir despesas tem natureza indenizatória e não integra o salário
  • TST — RR 105302 (Rel. Juíza Eneida Melo, DJ 07/12/2000) – pagamento habitual sem comprovação de despesas tem natureza salarial
  • TST — RR 879-68.2011.5.09.0091 (Rel. Min. Maria Helena Mallmann, 2018) – cabe ao empregado provar que as despesas superaram o valor ressarcido
  • TST — RR 953-63.2012.5.04.0015 (Rel. Min. Alexandre Belmonte, 2017) – CCT pode estabelecer o valor de referência por km; quilometragem não impugnada na defesa é presumida verdadeira
  • TRT-3 — Proc. 01601/1997 – valor do reembolso não pode permanecer congelado; deve acompanhar variações do combustível para não transferir ao empregado os riscos da atividade
  • TRT-24 — Proc. 01009/2003 – ajuda quilometragem calculada com base na produção (não na km real) tem natureza salarial: é prêmio por produção
  • TST — RR 30153/2002-902-02-00.7 (Rel. Min. Carlos Alberto Reis de Paula, 2007) – ressarcimento de despesas com quilometragem não integra o salário de contribuição

Natureza Jurídica: Quando é Indenizatório e Quando é Salarial

A distinção é determinante para o DP: natureza indenizatória significa que o reembolso é um mero ressarcimento de despesa — sem reflexo em 13º, férias, INSS ou FGTS. Natureza salarial significa que o valor integra a remuneração e gera todos os encargos. Veja as situações:

SituaçãoNatureza e Consequência
Pago mediante comprovação de despesas (notas fiscais de combustível, manutenção, seguro, IPVA)INDENIZATÓRIA — sem encargos trabalhistas ou previdenciários
Pago habitualmente sem exigência de comprovação de despesasSALARIAL — integra 13º, férias, DSR, INSS e FGTS (TST — RR 105302)
Pago com base na produção do empregado (não na quilometragem real)SALARIAL — configura prêmio por produção (TRT-24 — Proc. 01009/2003)
Pago para cobrir deslocamento residência–trabalho–residênciaSALARIAL — natureza de salário-utilidade (locomoção do empregado)
Pago por deslocamentos em fins de semana (fora da jornada de trabalho)SALARIAL — sem relação com serviço externo em benefício da empresa
Valor fixo mensal, independente dos km efetivamente rodadosSALARIAL — ausência de caráter ressarcitório real
Valor suficiente para cobrir todas as despesas (combustível + depreciação + manutenção)INDENIZATÓRIA — TST reconheceu como suficiente R$ 0,65/km quando cobre todos os custos
Valor insuficiente — paga apenas parte das despesas reaisA diferença é devida como ressarcimento; o valor pago pode ter natureza indenizatória parcial

Regra prática: o empregador deve exigir comprovantes (notas fiscais de combustível, manutenção, seguro, IPVA) e pagar com base neles. Pagamentos fixos mensais sem comprovação são tratados como salário pela jurisprudência — independentemente da denominação dada.

Incidências Quando a Verba Tem Natureza Salarial

Encargo / VerbaIncide?Observação
13º salárioSimValor mensal médio integra a base de cálculo
Férias + 1/3 constitucionalSimIntegra a remuneração de férias
DSR (domingos e feriados)SimReflexo salarial sobre os repousos semanais
INSS do empregadoSimSobre o valor recebido, tabela progressiva
INSS patronal (CPP)Sim20% sobre o valor pago ao empregado
FGTSSim8% sobre o valor pago
IRRFSimIntegra rendimentos tributáveis
Multa de 40% do FGTS (rescisão)SimSobre o saldo de FGTS, que inclui essa base

Atenção — habitualidade: mesmo que o reembolso seja indenizatório (com comprovantes), se for pago habitualmente e depois suprimido, a supressão pode ser considerada lesão ao contrato — o que não retira a natureza indenizatória, mas exige cautela na gestão do benefício.

Como Calcular o Valor Justo por Quilômetro Rodado

O reembolso por km deve cobrir todas as despesas decorrentes da utilização do veículo para o serviço: combustível, manutenção, depreciação, pneus, seguro, IPVA e taxas. A tabela abaixo demonstra um cálculo-base para dois perfis de veículo (dados utilizados à época de elaboração do guia — atualize os valores de combustível e manutenção conforme a data de cálculo):

Premissas do cálculo:

  • Rendimento médio do veículo: 10 km por litro (gasolina)
  • Quilometragem média anual: 27.000 km
  • Depreciação: reposição após 2 anos com 20% de depreciação
  • Manutenção anual: 4,5% do valor do veículo (revisões, troca de óleo, pneus, freios, filtros, alinhamento, balanceamento, lavagens)
  • Pneus: troca a cada 50.000 km
  • Seguro: 5% ao ano sobre o valor do veículo
  • IPVA + DPVAT + Licenciamento: 3% ao ano
Item ConsideradoVeículo R$ 60.000Veículo R$ 90.000
Valor hipotético do veículoR$ 60.000,00R$ 90.000,00
Reposição após 2 anos (20% depreciação) — R$/kmR$ 0,22/kmR$ 0,33/km
Manutenção anual (4,5% do valor) — R$/kmR$ 0,10/kmR$ 0,15/km
Troca de pneus a cada 50.000 km — R$/kmR$ 0,04/kmR$ 0,05/km
Seguro do veículo (5% ao ano) — R$/kmR$ 0,11/kmR$ 0,17/km
IPVA, DPVAT e licenciamento (3% ao ano) — R$/kmR$ 0,07/kmR$ 0,10/km
Combustível (gasolina, 10 km/L, R$ 6,20/L) — R$/kmR$ 0,62/kmR$ 0,62/km
VALOR TOTAL DO REEMBOLSO POR KM RODADOR$ 1,16/kmR$ 1,42/km

Exemplo de Reembolso Mensal

Empregado que rodou 2.300 km no mês a serviço da empresa:

SituaçãoValor do Reembolso
Quilômetros rodados no mês2.300 km
Reembolso — veículo de R$ 60.000,00 (× R$ 1,16)R$ 2.668,00
Reembolso — veículo de R$ 90.000,00 (× R$ 1,42)R$ 3.266,00

Atualização periódica obrigatória: os tribunais do trabalho possuem o entendimento de que o valor do reembolso não pode permanecer congelado ao longo do contrato. Reajustes no preço do combustível corroem o valor real do ressarcimento, transferindo indevidamente ao empregado os riscos da atividade econômica — o que viola o art. 2º da CLT. O valor por km deve ser revisado periodicamente, acompanhando pelo menos a variação do combustível.

Portanto a recomendação técnica é que a empresa monitore o preço do combustível na sua região específica e aplique um índice de correção sempre que houver variações significativas.

Ônus da Prova: Quem Precisa Provar o Quê

A jurisprudência do TST distribui o ônus da prova de forma clara:

  • Empresa: deve comprovar que efetuou o pagamento do reembolso (recibos, extratos, folha de pagamento) e os valores pagos
  • Empregado: se alegar que as despesas reais superaram o valor ressarcido, cabe a ele provar essa diferença — com notas fiscais de combustível, recibos de manutenção etc. (TST — RR 879/2011)
  • Quilometragem não impugnada: quando o empregador não contesta, na defesa, a quilometragem alegada pelo reclamante na petição inicial, presume-se que aquela foi a quilometragem efetivamente percorrida (TST — RR 953/2012)

Risco da falta de documentação: quando a empresa não junta comprovantes de pagamento, a jurisprudência aceita como parâmetro o valor admitido pelo próprio reclamante em depoimento — ou aplica, por analogia, os valores das CCTs da categoria dos vendedores e viajantes.

Boas Práticas para Manter a Natureza Indenizatória

  • Exigir apresentação de comprovantes de despesas (notas fiscais) para cada período de reembolso
  • Pagar com base na quilometragem efetivamente rodada — não em valor fixo mensal
  • Registrar em relatório ou sistema a quilometragem percorrida em cada deslocamento a serviço
  • Vincular o pagamento exclusivamente a deslocamentos a serviço da empresa — não ao percurso residência–trabalho nem a fins de semana
  • Não vincular o valor ao desempenho ou à produção do empregado — o critério deve ser a distância percorrida
  • Revisar periodicamente o valor por km para refletir variações de combustível e demais custos
  • Lançar na folha de pagamento como verba indenizatória, informando na EFD-Reinf/DIRF como rendimento isento (quando efetivamente indenizatório)

Checklist para o DP

  • Verificar como o reembolso de quilometragem está sendo pago: com base em km comprovados e notas fiscais (indenizatório) ou em valor fixo sem comprovação (salarial)
  • Se o pagamento for salarial: incluir na base de cálculo do 13º, férias, DSR, INSS e FGTS e corrigir eventuais passivos retroativos
  • Se for indenizatório: guardar todos os comprovantes (notas fiscais, relatórios de km) por pelo menos 5 anos — são a principal defesa em reclamatória trabalhista
  • Verificar se o valor por km está atualizado — comparar com o preço atual do combustível e com as CCTs da categoria
  • Nunca calcular o valor com base na produção ou nas vendas do empregado — isso caracteriza prêmio por produção, com natureza salarial
  • Não pagar reembolso pelo percurso residência–trabalho–residência nem por deslocamentos em fins de semana ou fora da jornada de trabalho
  • Exigir relatório de deslocamentos assinado pelo empregado e aprovado pelo gestor a cada período
  • Em caso de valor insuficiente (paga parte das despesas): a diferença é devida ao empregado — o risco da atividade é do empregador (art. 2º da CLT)

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